Acre

O Acre é hoje um estado brasileiro. Mas isso nem sempre foi assim. O Acre já foi boliviano. A região - hostil, distante da capital La Paz e inabitada - começou a ser ocupada por brasileiros durante o chamado ciclo da borracha, em meados do Século XIX. Depois de muitas disputas que chegaram ao início do século XX, brasileiros e bolivianos chegaram a um acordo, articulado pelo Barão do Rio Branco, que em 1903 usou um misto de diplomacia e pressão militar para convencer os bolivianos a entregar o Acre em troca de territórios brasileiros do Estado de Mato Grosso, mais a importância de 2 milhões de libras esterlinas (algo hoje equivalente a pouco menos de US$ 1 bilhão). Consta ainda que o Brasil também deu cavalos de presente à Bolívia quando o acordo foi firmado.

Veja abaixo a cronologia dessa história:

1867 - O atual Estado do Acre era uma possessão da América espanhola de acordo com os Tratados Hispano-Portugueses de 1750 (Tratado de Madrid), 1777 (Santo-Ildefonso) e 1801 (Badajoz). Após as independências da América Latina, o Brasil reconheceu aquela zona como boliviana através do tratado de limites de 1867.

1852 - Apesar de ser território boliviano, não havia qualquer ocupação por parte da Bolívia, em parte por ser uma região de difícil acesso por outro caminho que não a Bacia do Rio Amazonas. Em virtude da abundância da seringueira e do ciclo da borracha - que estava se iniciando - colonos brasileiros iniciaram a ocupação do Acre.

1867 - É firmado o tratado internacional de Ayacucho, pelo qual o Brasil considerava o Acre como território boliviano.

1877 - Com a revolução dos transportes nos países europeus e nos Estados Unidos, a borracha passou a ter um papel fundamental. Quase toda a borracha consumida no mundo saía da Amazônia, sendo que 60% era extraída do território acreano. A "imigração" de brasileiros atingiu grandes proporções, já que, fugindo da seca histórica de 1877/1879, que devastou o Ceará, milhares de cearenses partiram para a região atrás de uma alternativa de sobrevivência. Nessa época, o presidente da Bolívia, Aniceto Arce, foi alvo de um golpe de estado comandado pelo coronel José Manuel Pando que, derrotado, se refugiou no Acre. Foi só aí que os bolivianos e o governo de La Paz se deram conta de que a ocupação brasileira já era de grandes proporções.

1882 - Os cearenses fundaram o Seringal Empresa, que mais tarde veio a ser a capital do Acre. O governo de La Paz começou a organizar uma reação, já que, para os bolivianos, a situação praticamente repetia o que ocorrera na década de 1870 com a penetração de trabalhadores chilenos na área do Atacama atrás do salitre. A chamada Guerra do Pacífico (1879-1883) fez com que a Bolívia, derrotada, perdesse a sua única saída para o mar, tendo que aceitar ficar isolada dos oceanos do mundo.

1898 - A Bolívia enviou uma missão de ocupação para o Acre causando, em 1º de maio de 1899, uma revolta armada dos colonos brasileiros, que receberam o apoio do governo do Estado do Amazonas. Derrotados, os bolivianos foram forçados a abandonar a região.

1899 - Apesar da oposição do governo central brasileiro, que com base no tratado de Ayacucho ainda considerava o Acre território boliviano, o governador do Amazonas, Ramalho Júnior, mandou para o Acre uma unidade de mercenários comandados pelo espanhol Luis Galvez Rodrigues de Arias. Objetivo: evitar a volta dos bolivianos ao território. Galvez - que veio a ser chamado "Imperador do Acre" - partiu de Manaus em 4 de junho de 1899 e chegou à localidade boliviana de Puerto Alonso, que teve seu nome mudado para Porto Acre, onde proclamou a República do Acre em 14 de julho de 1899.

1900 - O governo central brasileiro, sediado no Rio de Janeiro, enviou tropas que dissolvem a República do Acre em 15 de março. A tal "república" caiu, mas o território continuou ocupado por seringueiros brasileiros. Nesta época foi descoberta a existência de um acordo diplomático entre a Bolívia e os Estados Unidos estabelecendo que haveria apoio militar americano à Bolívia em caso de guerra com o Brasil. A Bolívia organizou uma pequena missão militar para ocupar a região. Ao chegar em Porto Acre, foi impedida pelos habitantes brasileiros de continuar o seu deslocamento, mais uma vez apoiados pelo governo do Amazonas, que enviou uma nova expedição. A Expedição dos Poetas, sob o comando do jornalista Orlando Correa Lópes, proclamou a Segunda República do Acre em novembro de 1900, tendo Rodrigo de Carvalho assumido o cargo de presidente. Um mês depois, em 24 de dezembro de 1900, os brasileiros foram derrotados pelos militares bolivianos e esta segunda república também foi dissolvida.

1901 - A Bolívia assina um contrato de arrendamento do Acre com um sindicato de capitalistas americanos e ingleses. Pelo contrato, o grupo, chamado de Bolivian Syndicate, assumiria total controle sobre a região, inclusive militar. Esse acordo deu ao governo boliviano a confiança para rechaçar militarmente - com o apoio dos americanos - qualquer intenção do Brasil em relação ao Acre.

1902 - Em 6 de agosto, um militar brasileiro chamado Plácido de Castro foi enviado ao Acre pelo governador do Amazonas, Silvério Néri, e iniciou a então denominada Revolução Acreana. Os rebeldes imediatamente tomaram toda a região, exceto Porto Acre, que somente se rendeu em 24 de janeiro de 1903. Três dias depois, 27 de janeiro, foi proclamada a Terceira República do Acre, agora com o apoio do presidente Rodrigues Alves e do seu ministro do Exterior, o Barão do Rio Branco, que ordenou a ocupação do Acre e estabeleceu um governo militar sob o comando do general Olímpio da Silveira. A notícia revoltou a população de La Paz que exigiu imediata resposta do governo boliviano. Tão grave soou a coisa que foi o próprio presidente boliviano à época, general José Manuel Pando Pando, quem tomou a si o comando de uma força que marcharia para o Acre para lavar a honra da Bolívia ofendida. A guerra era uma questão de tempo.

1903 - Antes que explodisse a batalha, entra em cena a diplomacia brasileira, comandada por Rio Branco, que estabeleceu duas frentes para o Brasil ter o Acre sem um choque militar com a Bolívia. Ele arregimentou o apoio da Casa Rothschild, de Londres, instituição financeira de históricas ligações com o Brasil, para que os banqueiros intermediassem um acordo com o Bolivian Syndicate de Nova York. Operação bem-sucedida, pois os americanos aceitaram uma compensação de 110 mil libras esterlinas para desistir do negócio com os bolivianos, o que enfraqueceu o lado do governo de La Paz. Por outro lado, Rio Branco fez questão de deixar claro para a Bolívia que o Brasil estava mesmo disposto a ir à guerra pelo Acre. Como demonstração de força, ordenou a mobilização de tropas federais em Mato Grosso e no Amazonas para que se deslocassem para o território do Acre. Um admirador exaltado da posição tomada pelo barão escreveu na imprensa à época: "Temos um Homem no Itamaraty". Assim, com essa articulada combinação de diplomacia e argumento militar, só restou ao governo da Bolívia retroceder e aceitar um acordo.

O ACORDO - Os governos do Brasil e da Bolívia assinaram em 21 de março de 1903 um tratado preliminar, ratificado pelo Tratado de Petrópolis em 17 de novembro de 1903. Neste, a Bolívia abria mão de todo o Acre em troca de territórios brasileiros do Estado de Mato Grosso mais a importância de 2 milhões de libras esterlinas. O principio sustentado pelo Brasil na sua demanda para com a Bolívia foi o mesmo utilizado pelos portugueses nos tempos dos tratados de 1750 e 1777, assinados entre o Reino de Portugal e o Reino da Espanha para acertarem suas diferenças fronteiriças na América Ibérica: o do uti possidetis solis. Quer dizer, tem direito ao território quem o possui, quem toma a terra contestada é o seu dono de fato.

O Tratado de Petrópolis foi aprovado por lei federal de 25 de fevereiro de 1904, regulamentada por decreto presidencial de 7 de abril de 1904, incorporando o Acre como território brasileiro. O território do Rio Branco foi elevado à condição de Estado do Acre em 15 de junho de 1962.



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Acre is now a Brazilian state. But that was not always the case. Acre was once a Bolivian. The region - hostile, far from the capital La Paz and uninhabited - began to be occupied by Brazilians during the so-called rubber cycle in the mid-19th century. After many disputes that reached the beginning of the 20th century, Brazilians and Bolivians reached an agreement, articulated by the Baron of Rio Branco, who in 1903 used a mixture of diplomacy and military pressure to persuade Bolivians to surrender Acre in exchange for territories Brazilians from the State of Mato Grosso, plus the importance of 2 million pounds sterling (something today equivalent to just under $ 1 billion). It also states that Brazil also gave gift horses to Bolivia when the agreement was signed.

See below the chronology of this story:

1867 - The present State of Acre was a possession of Spanish America according to the Spanish-Portuguese Treaties of 1750 (Treaty of Madrid), 1777 (Santo-Ildefonso) and 1801 (Badajoz). After the independence of Latin America, Brazil recognized that zone as Bolivian through the treaty of limits of 1867.

1852 - Despite being a Bolivian territory, there was no occupation on the part of Bolivia, partly because it is a region that is difficult to access by way other than the Amazon River Basin. Due to the abundance of the rubber tree and the rubber cycle - which was beginning - Brazilian colonists began to occupy Acre. 

1867 - The international treaty of Ayacucho was established, by which Brazil considered Acre as Bolivian territory. 

1877 - With the transport revolution in European countries and the United States, rubber has played a key role. Almost all the rubber consumed in the world left the Amazon, with 60% being extracted from the Acrean territory. The "immigration" of Brazilians reached great proportions, since, fleeing from the historical drought of 1877/1879, which devastated Ceará, thousands of Cearians left for the region behind an alternative of survival. At that time, the president of Bolivia, Aniceto Arce, was the target of a coup led by Colonel Jose Manuel Pando, who, defeated, took refuge in Acre. It was only then that the Bolivians and the government of La Paz realized that the Brazilian occupation was already of great proportions. 

1882 - The Cearenses founded the Seringal Company, which later became the capital of Acre. The government of La Paz began to organize a reaction, since, for the Bolivians, the situation practically repeated what had happened in the 1870s with the penetration of Chilean workers in the Atacama area behind the saltpeter. The so-called War of the Pacific (1879-1883) caused Bolivia, defeated, to lose its only outlet to the sea, having to accept isolation from the world's oceans.

1898 - Bolivia sent an occupation mission to Acre, causing, on May 1, 1899, an armed revolt of the Brazilian settlers, who received the support of the government of the State of Amazonas. Defeated, the Bolivians were forced to leave the region. 

1898 - Bolivia sent an occupation mission to Acre, causing, on May 1, 1899, an armed revolt of the Brazilian settlers, who received the support of the government of the State of Amazonas. Defeated, the Bolivians were forced to leave the region. 

1899 - Despite opposition from the Brazilian central government, which based on the Ayacucho treaty still considered Acre a Bolivian territory, the governor of Amazonas, Ramalho Júnior, sent to Acre a unit of mercenaries commanded by the Spaniard Luis Galvez Rodrigues de Arias. Objective: to avoid the return of the Bolivians to the territory. Galvez - who came to be called "Emperor of Acre" - left Manaus on June 4, 1899 and arrived in the Bolivian town of Puerto Alonso, which had its name changed to Porto Acre, where he proclaimed the Republic of Acre on July 14 of 1899. 

1900 - The Brazilian central government, based in Rio de Janeiro, sent troops that dissolve the Republic of Acre on March 15. The "republic" fell, but the territory continued to be occupied by Brazilian rubber tappers. At that time the existence of a diplomatic agreement between Bolivia and the United States was discovered establishing that there would be American military support to Bolivia in case of war with Brazil. Bolivia organized a small military mission to occupy the region. Upon arriving in Porto Acre, it was prevented by the Brazilian inhabitants to continue their displacement, once again supported by the government of Amazonas, which sent a new expedition. The Expedition of the Poets, under the command of the journalist Orlando Correa Lópes, proclaimed the Second Republic of Acre in November of 1900, and Rodrigo de Carvalho assumed the position of president. One month later, on December 24, 1900, the Brazilians were defeated by the Bolivian military and this second republic was also dissolved.

 1901 - Bolivia signs a lease of Acre with a union of American and English capitalists. Under the contract, the group, called the Bolivian Syndicate, would assume full control over the region, including the military. This agreement gave the Bolivian government the confidence to militarily reject - with the support of the Americans - any intention of Brazil regarding Acre.

 1902 - On August 6, a Brazilian soldier named Plácido de Castro was sent to Acre by the governor of the Amazon, Silvério Néri, and began the so-called Acreana Revolution. The rebels immediately seized the entire region except Porto Acre, which only surrendered on January 24, 1903. Three days later, January 27, the Third Republic of Acre was proclaimed, now with the support of President Rodrigues Alves and his Foreign Minister, the Baron of Rio Branco, who ordered the occupation of Acre and established a military government under the command of General Olímpio da Silveira. The news revolted the population of La Paz that demanded immediate response of the Bolivian government. So serious was the thing that was the Bolivian president himself at the time, General Jose Manuel Pando Pando, who took control of a force that would march to Acre to wash the honor of Bolivia offended. War was a matter of time. 

1903 - Before the battle exploded, Brazilian diplomacy, led by Rio Branco, came into play, which established two fronts for Brazil to have Acre without a military clash with Bolivia. He enlisted the support of House Rothschild of London, a financial institution of historical connections with Brazil, for bankers to broker a deal with New York's Bolivian Syndicate. The operation was successful because the Americans accepted a compensation of £ 110,000 to give up the business with the Bolivians, which weakened the government side of La Paz. On the other hand, Rio Branco made it clear to Bolivia that Brazil was ready to go to war in Acre. As a demonstration of force, he ordered the mobilization of federal troops in Mato Grosso and Amazonas to move to the territory of Acre. An admirer exalted in the position taken by the Baron wrote in the press at the time: "We have a Man in Itamaraty." Thus, with this articulated combination of diplomacy and military argument, it only remains for the Bolivian government to back down and accept an agreement. 

THE AGREEMENT The governments of Brazil and Bolivia signed a preliminary treaty on March 21, 1903, ratified by the Treaty of Petropolis on November 17, 1903. In this, Bolivia gave up all Acre in exchange for Brazilian territories of the State of Mato Grosso plus the importance of 2 million pounds sterling. The principle sustained by Brazil in its demand for Bolivia was the same used by the Portuguese at the time of the treaties of 1750 and 1777, signed between the Kingdom of Portugal and the Kingdom of Spain to settle their border differences in Iberian America: possidetis solis.

 That is to say, it has right to the territory who owns it, who takes the disputed earth is its owner in fact. The Petrópolis Treaty was approved by federal law of February 25, 1904, regulated by presidential decree of April 7, 1904, incorporating Acre as Brazilian territory. The territory of Rio Branco was elevated to the condition of Acre State on June 15, 1962.